Eu aprendi a programar por volta de 2004 e comecei a programar profissionalmente em 2007. Nunca parei.
Mesmo entre 2022 e 2024, quando trabalhei como Engineering Manager, continuei codando no tempo livre, ouvindo podcasts, assistindo vídeos no YouTube e acompanhando novidades do ecossistema que sempre me interessou.
Eu amo programar. Explicar para o computador o que fazer e como fazer é um prazer que só quem faz consegue entender.
Tem desafios, mas é recompensador - profissionalmente e financeiramente.
Então as IAs chegaram. E programação foi uma das áreas mais impactadas.
Quando eu falo IA neste post, estou me referindo principalmente a LLMs (Large Language Models) - como Claude, GPT, Gemini e similares.
Programar virou revisar diffs
No início eu usava IA de forma esporádica. Conforme as ferramentas evoluíram, passei a usar cada vez mais.
Já usei editores como Vim, VS Code e Cursor.
Hoje, curiosamente, minhas ferramentas principais não são mais um terminal + editor/IDE, mas sim terminal + um Git GUI, que antes eu usava de vez em quando... agora uso mais do que o editor!
No terminal, ferramentas como Claude Code, Gemini CLI e similares são o destaque da vez.
Cheguei a um ponto em que é raro eu abrir o editor para alterar qualquer coisa. Mesmo mudanças simples, prefiro pedir ao Claude Code e depois revisar o que foi feito via git diff.
Git nunca foi tão importante
Eu sempre usei Git. Mas quando uso IA para criar ou atualizar código, o Git se tornou ainda mais essencial.
Quando algo que estou trabalhando não é trivial, peço para a IA fazer mudanças passo a passo e, após cada interação, movo os arquivos modificados para a staging area para revisar o que mudou.
Só faço o commit quando uma mudança auto-contida está pronta.
O Git virou minha camada de controle sobre a IA.
Inclusive, as próprias configurações de IA - prompts, agents, skills, configurações do Claude ou Cursor - ficam versionadas em outro repositório privado.
Passei a usar IA para tudo. A produtividade explodiu, mas minha satisfação nem tanto
Durante boa parte do último ano, tudo parecia ótimo. Eu até ri desse meme:
Eu vendo a LLM fazer o trabalho que eu amava
Ri e concordei, mas não imaginei que aquilo fosse me atingir depois.
Hoje eu sou claramente mais produtivo com IA. Entrego mais.
A qualidade do código tende a sair melhor (claro que eu ainda reviso tudo que a IA faz).
Clientes e empresas ficam mais satisfeitos, afinal estamos entregando mais em menos tempo.
Até o famoso Project management triangle parece afetado.
Escopo, tempo e custo melhoraram ao mesmo tempo, sem afetar a qualidade - algo que sempre aprendemos ser impossível.
Claro, a qualidade ainda depende de como a IA é usada e revisada, mas o ganho é inegável.
O tal do vibe coding ainda não chegou ao ponto de deixar tudo 100% na mão da IA sem supervisão, mas a tendência é evoluir.
E mesmo assim, algo me incomoda.
Estamos terceirizando nosso cérebro para LLMs
Sinto que estou menos desafiado. Antes, quando uma dependência era atualizada, eu:
Lia o Changelog
Identificava breaking changes
Analisava o impacto no projeto
Ajustava o código manualmente
Hoje, é muito mais prático pedir para a IA fazer isso.
Ela provavelmente fará melhor e em uma fração do tempo.
Então por que eu faria manualmente? Esse é o ponto que me pega.
Usar IA ou não deixou de ser uma escolha pessoal.
Não usar IA significa ficar para trás, ficar desatualizado.
A thumbnail desse post foi gerada por IA. O conteúdo foi revisado por IA. Não vamos voltar ao que era antes.
O novo papel do programador
Na prática, meu trabalho hoje é:
Entender o problema ou demanda
Discutir com o time até alinharmos uma solução (de alto nível, não necessariamente como será a implementação)
Pensar em UI e UX
Planejar integrações com sistemas existentes
Escrever um card no Jira
Depois disso, envio todo o contexto para o Claude Code e uso Agents, Skills, MCPs e afins para executar.
Mesmo tarefas que envolvem múltiplos repositórios - algo comum onde trabalho - são feitas com bastante competência pelas IAs.
Até mensagens de commit, títulos e descrições de PR e cards do Jira muitas vezes passam pela IA.
Eu sei que ela vai escrever melhor que eu.
No dia a dia, o que faço é revisar, simplificar e ajustar o que foi gerado.
Às vezes corrijo detalhes no código ou na documentação. Mas a parte mais difícil já foi feita.
E cada vez tenho menos vontade de fazer manualmente. Dá até preguiça.
Isso me deixa com a sensação de que posso estar ficando mais burro, já que os desafios são bem menores.
Perda de habilidade - ou evolução?
Por um tempo, fiquei receoso de admitir que uso IA para tudo.
Quando não uso, me sinto improdutivo. Conversando com outras pessoas, percebi que não estou sozinho.
Não estou fazendo nada errado. Estou buscando produtividade. Certo?
Mesmo assim, surge a dúvida: vou perder minhas habilidades de programação?
Pelo menos no formato em que elas existiam até agora?
Talvez sim.
Mas e daí? As IAs vão continuar evoluindo.
Ainda sou necessário para revisar, contextualizar e garantir que o resultado faz sentido.
Não estou preocupado com perder emprego - essa é outra questão que vale discutir (me conte nos comentários como você se sente).
Minha preocupação é outra: minha satisfação profissional.
Programar sempre foi algo que eu amei. E agora isso está mudando.
Não necessariamente para pior. Mas está mudando.
A IA me deixou 10x mais produtivo... e 2x mais inseguro
Às vezes me pego pensando se estamos caminhando para algo no estilo
Idiocracy - que é um filme exagerado, mas com um fundo de verdade.
Não estou com medo das máquinas dominarem tudo e/ou nos substituírem.
Ainda me sinto útil. O que me preocupa é a transformação do prazer de programar.
Tudo mudou muito rápido. Pense em como era 2-3 anos atrás.
Nunca mais será como antes.
Talvez eu soe como um velho reclamando. Mas a velocidade da mudança impressiona.
E vai continuar, porque há muito dinheiro e interesse envolvidos.
Não sou contra IAs - muito pelo contrário. Uso intensamente. Defendo. Recomendo.
Mas também estou tentando fazer uma análise honesta do que está acontecendo.